Todos os dias.
Já não dói mais, já não cansa, e nem parece impossível o fato de levar a mesma vida por muitos anos, e esse fato também não traz reação alguma.
É como se o corpo respondesse as necessidades diárias, mas a mente não absorvesse as informações que chegam a ela.
Anestesiada.
Já não se sonha mais a noite, já não se deseja mais baixinho. Não se ouvem mais pedidos de aniversários e nem para as estrelas cadentes.
É tudo automático, bate e volta, nada fica, nada influencia. Obrigações diárias, acordar, sobreviver, dormir.
Uma verdade que deveria doer não faz nem cócegas. Palavras que deveria fazer sangrar, não rasgam a carne e
aquele esforço feito antigamente já não demonstra mais entusiasmo.
Era tudo colorido, mas os braços cansaram de pintar as paredes.
E aquela vegetação do jardim já tem mais vida. E a vida já não tem mais graça.
Mas não machuca, não afeta. Apenas passa.
É como estar em uma esteira, as coisas ao redor se movimentando e nenhum esforço vindo de nós. Tudo ao redor se modificando, atacando e sendo atacado, melhorando, piorando, sofrendo e sorrindo. Mas nenhuma reação vinda da esteira.
Tem toda uma falta, um silêncio preenchendo tudo e palavras engasgadas, que nunca serão ditas, porque a mente já não se importa mais com tudo aquilo ou pelo menos não se esforça. A beleza do silêncio é o barulho da falta de palavras.
O quarto escuro acomoda os antigos móveis e os medos, novos e velhos, gastos. Todos acumulados como troféus de uma batalha fracassada contra si mesmo.
Um mural de flashes da vida que foi, um dia, mais colorida, mas que hoje em dia é apenas ruido. Um ruido baixo, que não incomoda e nem se faz notar as distrações da mente paralisada.
Once upon a time....