Era como Gregor Samsa se sentia na manhã em que acordou metamorfoseado em um inseto gigantesco, provavelmente uma barata, na história de Kafka.
Acordei e era um corpo estranho, não conseguia me mover, apenas ouvia a vida gritar. Tinha pensamentos que antes me assustavam e que eu me recusava a deixar me invadir, mas que agora transbordavam.
Diferente de Gregg, consegui me mover. Aceitei ao chamado e ao me olhar no espelho, me apaixonei pelo que vi. O brilho de vida vindo dos meus olhos me fizeram sorrir... Não era mais a mesma coisa de antes, tudo havia mudado em uma única noite, com apenas algumas horas de sono e um refletir profundo, como sempre fiz antes de todas as noites de sono.
E então estava tudo mais leve, o sol não queimava, apenas aquecia a pele fria. O vento corria por mim e enchia meus pulmões de mais e mais vida.
Ouvia tudo com clareza, enxergava tudo como realmente era.
E a melhor parte, não doía.
Estava em um corpo diferente, finalmente vivendo uma vida tranquila e por mais que tentasse me lembrar, me forçasse a lembrar de todos os outros dias tristes e sem vida, por mais que eu lembrasse deles, que eu me torturasse por eles, não doía mais.
Lógico que vida sempre se confunde, sei que nada vai ser sempre leve e cheio de sorrisos.
E o melhor de tudo é ver o brilho de vida nos olhos das pessoas. Melhor do que os dos meus olhos, ver como vivem ao me ver viver.
Sentir finalmente um abraço e gostar daquilo, ouvir palavras doces e não me sentir melancólica...
Libertei os monstros do armário, me desfiz de tudo o que me atrasava.
Daquela roupa que não me cabe mais e eu consegui entender que não vai mais caber mesmo, não adianta guardá-la. Aqueles papéis que só fazem volume, com textos desconexos e frases clichês.
Passar para frente, próxima etapa.
Descobrir que não sou mais criança e que preciso das minhas pernas para andar sozinha, decidir sozinha, sorrir e chorar... Sozinha!
Mas novamente, diferente de Gregg, estarei sozinha porque aprendi a lei da vida e dos homens, não porque me deixei fazer sofrer.