Engraçado como a vida ri de nós.
São momentos em que sentamos e pensamos quão irônica a vida é todos os dias, mesmo que seja em mínimos detalhes.
Creio que ela nunca havia sentido isso desde que conheceu ele. Ela sempre foi tão na dela, mas ao mesmo tempo sempre infernizou a vida de bons.
Nunca tinha achado alguém a quem ela realmente tivesse vontade de contar suas frustrações, seus medos e suas vidas passadas, que foram muitas. Cada ano uma vida diferente, nem sempre melhor, nem sempre mais certa que a passada, mas sempre diferente.
Bons anos foram passados assim. Não bons nos sentido literal, mas no sentido de que passaram.
Eram brigas aqui, escolhas erradas dali... Um garoto estúpido, uma amizade errada, um pensamento torto.
Passaram.
Sempre jogando. Fosse o que fosse ela encarava como jogo.
Menina medrosa, arisca.
Adorava sentar nas escadas do colégio antigo e rir das pessoas. Fizeram tanto isso com ela durante boa parte da vida, que ela ao invés de impedir que outra pessoa sentisse as mesmas coisas que ela sentiu, queria mais era se vingar. Por boa parte deu certo.
Até que um dia ela se deparou com um grande problema. Riu tanto de uma pessoa que acabou apaixonada. Perdidamente apaixonada. Mas ela ainda não sabia disso e continuava rindo.
Foi questão de alguns meses. Quando se brinca demais, as coisas saem do controle, pois jogos são imprevisíveis.
Ela não se imaginava com mais ninguém a não ser com o riso de todas as manhãs. Ela se imaginava com ele a tarde e acontecia. Se imaginava com ele a noite e ele vinha. Foram dias assim.
Até que de tanto rir ele se cansou. Ele resolveu rir também e ela se machucou.
Pois é, minha cara. Ninguém nunca disse que seria fácil e você subestimou o riso. Ele virou a mesa, mostrou as cartas e você se machucou feio.
Ás vezes ela tem a impressão de que seu tombo foi tão feio que afetou seu juízo.
Ela grita, ela chora, ela voltou a fazer tudo errado. Mas não ri mais.
Ainda tira sarro, mas mais dela do que dos outros no momentos. Mas rir, nunca mais.
Em bons momentos ela pensa que vai superar. Na verdade ela tem certeza de que já superou e que nada disso passa de apenas sentimento de posse do riso que lhe foi tão brutalmente arrancado dos braços. Mas ela sabe que é mentira. Ela não superou e nunca vai superar.
Não porque seja a coisa mais importante do mundo, mas porque se foi importante por pelo menos um milésimo de segundo, jamais será esquecido ou deixado para trás.
Boas coisas quando são para ser nossas, mesmo se elas uma hora chegam a partir, sempre encontram o caminho de volta. Ela se repete isso todas as noites antes de dormir, todas as manhãs assim que acorda e todas as longas tardes quando ela teima em tentar a rir novamente sem grandes sucessos.
Esses dias andou se imaginando rindo de outras coisas. Andou pensando seriamente em um riso novinho que lhe foi apresentado. Mas não anda dando muita importância a isso no momento.
Mas por hora, ela só deseja que ela e o riso, mesmo separados, continuem sendo feitos um para o outro. Que sejam felizes por enquanto, que vivam separada, mas confortavelmente. Até o momento em que seja desejável e confortável voltar a rirem juntos.