- Essa é uma história que eu não gostaria de lhes contar, caros leitores. Mas eis aqui o meu relato...
Em uma manhã gelada e coberta pela brancura da neve que caia, em uma rua estreita e deserta, passava uma linda garotinha loira, de olhos verdes, que vestia uma calça marrom pouco maior que ela, um colete cor de rosa por cima de uma blusa branca de lã, luvas e um gorrinho azul.
No meio de seu passeio, um grande muro com muitos nomes escritos nele, instiga a pequena menina a fazer o mesmo. Então, ela para e analisa. Com um giz branco como a neve que sobre ela caia, escreveu: ALMA.
Quando se virou, uma grande vitrine em formato oval, do que um dia deveria ter sido uma loja, e dividida em três partes, faz com que ela perca o fôlego. Lá dentro, atrás daquele vidro, havia uma boneca que mais parecia seu próprio reflexo. Sim, era idêntica a Alma, mesmas roupas, mesmo tom branco de pele, cor de olhos e cabelos...
A garota, então, depois de alguns instantes parada, perplexa com tamanha semelhança, se dirige até a porta de vidro, ao lado da vitrine. Mas suas tentativas de entrar são em vão.
Emburrada, Alma se abaixa, faz uma bola de neve e a arremessa contra o vidro da porta, depois segue andando. Nesse mesmo instante, a porta se abre fazendo um pequeno barulho.
Com um sorriso alegre e surpreso, ela volta correndo e termina de escancarar a porta. Fica alguns poucos instantes parada, olhando tudo e então começa a entrar lentamente, observando tudo a sua volta, com detalhes.
Milhares de bonecas, cada uma com um estilo diferente, cada uma parecendo ter saído de uma época diferente e muito perfeitas. Quando vê, já estava no meio da sala e as bonecas a cercavam.
Alma não poderia estar mais encantada e finalmente encontra o teu objeto de desejo e curiosidade, aquela boneca que mais parecia o seu reflexo em um espelho.
Ao caminhar em direção a boneca, a pequena garotinha, tão vidrada em seu desejo, acaba não percebendo que existe algo no chão, acaba tropeçando em um bonequinho.
Este tem olhos arregalados, cabelos negros. Veste um terno e um shorts preto, com meias brancaspuxadas até ás canelas. Ele aparenta ser o menor de todos os bonecos que ali estão e está sentado em um triciclo.
Ela então se abaixa e o coloca em pé. O boneco então, sai pedalando em direção a porta, ela só o observa. A porta então, rapidamente se fecha, mas o pequeno boneco continua indo contra ela, batendo-se nela inumeras vezes e provocando um grande barulho.
A garota ignora o boneco e levanta-se do chão, voltando toda a atenção, novamente, para a boneca tão idêntica a sí, que no começo, estava na vitrine e agora encontrava-se em uma mesinha de centro. Veio o espanto! A boneca já não estava mais sobre a mesa.
Nervosa, e espantada, começa a olhar para todos os cantos da pequena sala, passando os olhos nas milhares de bonecas expostas nas inúmeras prateleiras. Então, a encontra ao meio daquela multidão de rostos inanimados, em pé, em uma das prateleiras.
Ela corre e se aproxima, sobe em um sofá que está aos pés das prateleiras e se estica para alcançar a boneca. O boneco continua a se bater na porta, agora com mais força, o ritimo é acelerado e o barulho se torna mais rápido e mais intenso do que antes.
A pequena Alma tira a luva e toca levemente o rosto da bonecatão cobiçada. Imagens surreais tomam conta de toda a sua mente. São pedaços de corpos dos bonecos, imagens dela mesma assustada e o som do boneco se chocando contra a porta, ao fundo.
Tudo se apaga;
Agora, Alma está observando a pequena sala, mas por outro ângulo. O boneco já não está mais no chão, o barulho se foi e ela pode ouvir sua respiração ofegante e desesperada. Ela não consegue se mover, apenas seus olhos têm movimento.
-É caro leitor, eu disse que não gostaria de estar lhes contando essa história, mas chegaremos ao fim.
Alma acaba como todos os outros, dentro da sala, cheia de bonecas, atrás da bela e atraente vitrine. Imóvel em uma das prateleiras e cercada por todos aqueles grandes olhos, que são os únicos movimentos que existem por lá.
Agora, ela é a alma por trás da boneca de aparência idêntica á dela, ela é a própria boneca, como todas que ali também estão. Almas de crianças, presas em corpos de plático.
Um novo ciclo, então, começa. À frente da vitrine, surge uma nova boneca. Uma linda boneca de cabelos cor de fogo, casaquinho vermelho de flores amarelas e meia calça branca. Ela então, fica ali, na vitrine, posicionada para cumprir sua missão, aprisionar mais uma pobre alma.
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